Passar para o conteúdo principal

História do desenvolvimento, adaptação física e psicológica, significados e crenças de obesos mórbidos : um estudo longitudinal

História do desenvolvimento, adaptação física e psicológica, significados e crenças de obesos mórbidos : um estudo longitudinal

Silva, Susana Sofia P.

| 2011 | URI

Tese

Programa doutoral em Psicologia (especialidade de Psicologia Clínica)
A obesidade e o seu tratamento constituem o principal tema desta dissertação,
organizando os diversos estudos que a compõem. De acordo com a Organização
Mundial de Saúde (OMS) (2010), a obesidade é uma doença crónica responsável pela
elevada morbilidade e mortalidade, sendo reconhecida como uma epidemia e um
problema de saúde pública, principalmente nos países industrializados. Apesar deste
reconhecimento, a literatura é pouco consistente sobre as caraterísticas dos obesos e a
forma como lidam com o tratamento. Este projeto visa descrever algumas caraterísticas
psicológicas dos obesos, a forma como estes compreendem a sua obesidade e como
lidam com o processo de tratamento, especificamente a cirurgia bariátrica, através de
um estudo longitudinal.
A caraterização dos sujeitos obesos, bem como as principais diferenças em
relação aos não obesos, tem sido alvo de interesse por diversos investigadores (Fairbun
& Brownell, 2002). No mesmo sentido, vários autores têm referido que as experiências
adversas na infância podem estar associadas ao desenvolvimento da obesidade na idade
adulta (e.g. Felitti, Anda, Nordenberg, & Williamson, 1998; Silva & Maia, 2007).
Atendendo a estes dados, no primeiro estudo comparamos sujeitos obesos com não
obesos no que se refere às experiências de adversidade vividas na infância e a diversas
caraterísticas psicológicas, verificando que a psicopatologia, o coping e os problemas de
saúde têm uma função discriminante, sendo que os problemas de saúde física são a
variável que mais contribui para a pertença ao grupo dos obesos. Atendendo à elevada prevalência das experiências de adversidade na infância e
às questões metodológicas relacionadas com a estabilidade dos relatos de adversidade
(e.g Hardt & Rutter, 2004), procuramos averiguar a estabilidade temporal do relato de
experiências de adversidade na infância num grupo de obesos. Os resultados deste
estudo, de cariz claramente metodológico, sugerem que o Questionário de História de
Adversidade na Infância apresenta boa estabilidade temporal para o auto-relato das
experiências de abuso.
O terceiro artigo que compõe esta tese refere-se a um estudo longitudinal
quantitativo, que pretendeu caracterizar 30 candidatos a cirurgia bariátrica e analisar as
mudanças observadas no que se refere ao peso, personalidade, estratégias de coping,
bem como os problemas e queixas de saúde relatadas antes da cirurgia, e seis e 12 meses depois da cirurgia. Verificou-se que a cirurgia bariátrica está associada a
melhorias ao nível da saúde física que tendem a esbater-se ao longo do tempo mas não
se observaram mudanças no que se refere à saúde mental. Nesta sequência procuramos
compreender, numa perspetiva qualitativa e utilizando os procedimentos da Grounded
Theory, de que forma é que os obesos concetualizam e significam a obesidade e o seu
tratamento, nomeadamente no que se refere às expetativas e crenças que os indivíduos
possuem antes da cirurgia bariátrica, acerca das exigências e do impato deste
procedimento. Esta tese inclui três estudos que recorrem a esta metodologia: o quarto, o
quinto e o sexto. O quarto estudo, que descreve e analisa dois casos protótipo: um caso
de sucesso e um caso de insucesso, ilustra uma potencialidade da metodologia que
escolhemos e corresponde ao trabalho inicialmente realizado com vista à exploração dos
dados do ponto de vista qualitativo. No quinto estudo, “Obesidade”, “Comportamento
alimentar” e “Tratamento” emergem como principais categorias no discurso dos
pacientes, sendo que a cirurgia assume um papel central e com significado de milagre
que irá resolver todos os problemas, em indivíduos que adotam um papel passivo. A
partir destes resultados, o objetivo do nosso sexto estudo foi compreender, 12 meses
após a cirurgia bariátrica, a forma como estes mesmos sujeitos experienciam o
tratamento da obesidade. Curiosamente, os sujeitos descrevem-se como sucessos ou
insucessos, numa classificação que não corresponde aos critérios que consideram a
perda de peso após a cirurgia (alguns insucessos descrevem-se como sucessos). Nos
casos que se descrevem como sucesso, emerge o papel pró-ativo, o comprometimento e
responsabilidade individual para com um longo processo de tratamento; enquanto os
insucessos continuam à procura de uma cirurgia milagre. No último estudo recorreu-se à triangulação de dados qualitativos e quantitativos
para compreender se os casos de sucesso e os insucessos definidos um ano depois da
cirurgia se distinguem antes da cirurgia, seis e 12 meses depois, e em que sentido vai
esta distinção. No momento da cirurgia não se verificam diferenças nas variáveis
quantitativas, mas os sujeitos compreendem e concetualizam esta problemática de forma
distinta. As diferenças nas variáveis quantitativas surgem aos seis meses, sendo que os
sucessos perdem mais peso, relatam menos estratégias de coping e apresentam menos
problemas de saúde do que os insucessos. Aos 12 meses, o padrão repete-se e os
insucessos continuam à espera de um milagre que resolva todos os seus problemas. A
discussão dos principais resultados e conclusões enfatizam a necessidade de promover
processos de mudança de forma a incrementar o sucesso do tratamento da obesidade.
Obesity and obesity treatment are the main theme of this dissertation, organizing
all the studies that compose it. World Health Organization (WHO) (2011) describe
obesity as a chronic disease related with high morbidity and mortality recognizing it as
a public health problem and an epidemic, mainly in industrialized countries. This
project aims to describe psychological obese characteristics, their understandings of
obesity and the way they deal with obesity treatment, especially bariatric surgery
through a longitudinal study.
Obese characterization and distinctions among non-obese has been subject of
interest for several authors (Fairbun & Brownell, 2002).Similarly, different authors
(Felitti, Anda, Nordenberg, & Williamson, 1998; Grilo, White, Masheb, Rothschild, &
Burke-Martindale, 2006; Silva & Maia, 2007) argued that adverse childhood
experiences may be related with obesity in adulthood. Therefore, the first study aimed
to characterize adverse childhood experiences, psychological functioning and health
problems in obese and compare them with non-obese. Data showed that
psychopathology, coping and health problems have a discriminant function whereas
health problems are the variable that contributes more to the obese group.
Regarding to the prevalence of adverse childhood experiences and to the
metodological problems related to the stability of retrospective studies presented in
some studies (Fergusson, Horwood, & Woodward, 2000; Hardt & Rutter, 2004), our
study aimed to analyze temporal stability of self-reported adverse childhood
experiences. Data from this methodological study suggested that Childhood History
Questionnaire has acceptable temporal stability for the dimensions of individual abuse
and neglect. In the third study, we present a qualitative longitudinal study that sought to
characterize bariatric surgery candidates and to analyze the changes regarding to weight,
personality traits, coping strategies, health problems and complaints, before surgery, at
6- and 12-months follow-up. Our results suggested that bariatric surgery is related to
physical health improvements that tend to blur over time and appeared to have no
impact in mental health.
Following these findings, we tried to understand, from a qualitative approach,
according to Grounded Theory procedures, how obese people conceptualize obesity and obesity treatment, namely their expectations and beliefs about treatment demands and
its impact on bariatric surgery, before this procedure. The fourth study is exploratory
and focuses on the analysis of two prototype cases. In the fifth study, “Obesity”, “eating
behavior” and “treatment” emerged as core categories and organize their discourses
whereas surgery plays a central role and it is perceived as a miracle that will solve all
life problems. In this case, the subject has a passive role.
In the following study, we tried to understand the patient’ experience in the postsurgery
adaptation related to bariatric surgery, 12 months after this procedure.
Curiously, the patients describe themselves as success or failure cases regarding to the
weight loss achieved whereas the classification do not attend to the weight loss (some
failure cases describe themselves as successes). Successes emerged the proactive role of
the subject, the personal responsibility and the commitment to a long treatment process
in order to achieve their objectives. On the other hand, failures are still looking for a
miracle, a surgery that will solve all life problems.
This led us to the last study, with methodological triangulation, in which we
explore the personal expectancies and perceptions, as well as the health and
psychological changes during obesity treatment, and to comprehend if subjects differ
before surgery, at 6- and 12-months follow-up and to what extent they are
distinguishable. Before surgery, there were no differences among quantitative variables.
At 6-months follow-up, there are group distinctions whereas successes lose more
weight, used fewer coping strategies and reported less health problems than failures. At
12-months, there are the same distinctions and failures are still looking for a miracle
surgery that will solve their problems.

Publicação

Ano de Publicação: 2011