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Violência bidirecional nas relações de intimidade: experiências adversas na infância e saúde mental em vítimas e ofensores

Violência bidirecional nas relações de intimidade: experiências adversas na infância e saúde mental em vítimas e ofensores

Meireles, Vera Raquel Baptista

| 2025 | URI

Diversos

A crescente atenção ao fenómeno da violência bidirecional nas relações de intimidade tem
vindo a desafiar os modelos tradicionais baseados numa perspetiva patriarcal e unidirecional,
levantando questões relevantes sobre a prevalência e complexidade desta dinâmica de violência.
A literatura tem analisado vítimas e ofensores de forma isolada, dificultando uma compreensão
integrada das suas características. O presente trabalho aposta numa abordagem inovadora ao
comparar os perfis psicológicos e desenvolvimentais de dois grupos distintos: 43 vítimas em
instituições de apoio à vítima e 30 ofensores em contexto prisional. O principal objetivo consistiu
em explorar a associação entre experiências adversas na infância, indicadores de saúde mental e
a presença de violência bidirecional nas relações de intimidade. Recorreu-se a instrumentos de
autorrelato para avaliar as variáveis de interesse. Os resultados evidenciaram uma elevada
prevalência de violência bidirecional, reportada por ambos os grupos, com maior incidência no
relato dos ofensores. Os ofensores reportaram significativamente mais experiências adversas na
infância, nomeadamente abuso emocional, negligência e exposição à violência doméstica,
enquanto as vítimas reportaram mais abuso sexual. Adicionalmente, a instabilidade sobre si e o
historial de comportamentos autolesivos apresentaram uma associação significativa com a
violência bidereccional. Estes dados reforçam a complexidade das dinâmicas da violência nas
relações íntimas e apontam para as limitações dos modelos unidirecionais. Os resultados
sustentam a necessidade de estratégias de prevenção e intervenção ajustadas aos perfis
individuais e ao historial de trauma, reconhecendo a bidirecionalidade como um padrão frequente
e relevante e que integrem respostas clínicas sensíveis ao género, ao trauma e à saúde mental.
Growing attention to the phenomenon of bidirectional violence in intimate relationships has
increasingly challenged traditional models grounded in patriarchal and unidirectional perspectives,
raising important questions about the prevalence and complexity of this form of violence. The
literature has largely examined victims and offenders in isolation, hindering an integrated
understanding of their characteristics. This study adopts an innovative approach by comparing the
psychological and developmental profiles of two distinct groups: 43 victims supported by victim
assistance institutions and 30 offenders in a prison context. The main objective was to explore the
association between adverse childhood experiences, mental health indicators, and the presence of
bidirectional violence in intimate relationships. Validated self-report instruments were used to
assess the variables of interest. The results revealed a high prevalence of bidirectional violence
reported by both groups, with a greater incidence among offenders. Offenders reported significantly
more adverse childhood experiences, particularly emotional abuse, neglect, and exposure to
domestic violence during childhood, whereas victims reported more instances of sexual abuse.
Additionally, identity instability and a history of self-harming behaviors showed a significant
association with bidirectional violence. These findings underscore the complexity of intimate
partner violence dynamics and highlight the limitations of unidirectional models. The results
support the need for prevention and intervention strategies tailored to individual profiles and trauma
histories, recognizing bidirectionality as a frequent and relevant pattern, and promoting clinical
responses that are sensitive to gender, trauma, and mental health.

Publicação

Ano de Publicação: 2025

Identificadores

ISSN: 204014697

ISBN: urn:tid:204014697